Destravando investimentos de USD 10 bilhões na Ásia Central: impulsionando a maior barragem do mundo com OPTGEN-SDDP

O setor elétrico da Ásia Central está passando por um realinhamento estrutural. Em um contexto de crescente demanda por eletricidade, infraestrutura legada e necessidade urgente de expandir a geração renovável, dois projetos hidrelétricos apoiados pelo Banco MundialRogun, no Tajiquistão, e Kambarata-1, no Quirguistão — destacam-se tanto pela escala quanto pelas implicações sistêmicas. Juntos, eles envolvem mais de USD 10 bilhões em investimentos e estão preparados para transformar o panorama energético regional.

A hidreletricidade continua sendo um dos ativos mais subexplorados da região. Apesar do grande potencial técnico, décadas de subinvestimento e desafios de coordenação atrasaram desenvolvimentos em larga escala. Nesse contexto, Rogun e Kambarata-1 são exceções. Além de serem os maiores projetos de infraestrutura energética de seus respectivos países, também ocupam papel central nos esforços regionais de integração de mercados de energia e fortalecimento da capacidade de exportação.

A Barragem de Rogun, atualmente em construção no rio Vakhsh, deverá atingir 335 metros de altura, tornando-se a barragem mais alta do mundo quando concluída. Com 3.600 MW de capacidade instalada e um reservatório de 13,3 bilhões de m³, o projeto deverá gerar quase 97% da atual demanda de eletricidade do Tajiquistão. A operação plena do reservatório é esperada para o final da década de 2030, com comissionamento gradual ao longo da década.

Kambarata-1, no rio Naryn, no Quirguistão, adicionará 1.860 MW de capacidade e 5,4 bilhões de m³ de armazenamento, aumentando em cerca de 32% a geração nacional. O início de operação está previsto para 2034.

Do ponto de vista econômico, os projetos representam uma parcela substancial do PIB: cerca de metade para o Tajiquistão e um terço para o Quirguistão. Nesse contexto, modelagem robusta do sistema e análise de mercados de exportação são essenciais — não apenas para orientar decisões de projeto e financiamento, mas também para garantir resiliência em países com espaço fiscal limitado e alta exposição à variabilidade climática e hidrológica.

Visão geral dos projetos – principais parâmetros

Ambos os projetos foram concebidos para ir além do suprimento doméstico de energia. Eles foram estruturados para permitir exportações regionais de eletricidade para países vizinhos como Cazaquistão, Uzbequistão, Afeganistão e Paquistão — uma ambição que depende da expansão da capacidade de interconexão e de um planejamento operacional integrado.

O esforço de modelagem que sustenta essa estratégia é detalhado nas seções a seguir.

Modelagem do Sistema Energético

A viabilidade de longo prazo de grandes projetos hidrelétricos na Ásia Central depende não apenas das obras civis e da estrutura de financiamento, mas também de como esses ativos se integram a um sistema elétrico regional orientado à exportação.

Para lidar com essa questão, o esforço de modelagem conduzido pela PSR abrangeu toda a região da Ásia Central, com bases de dados detalhadas para Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Turcomenistão e Tajiquistão, além de representações simplificadas de Afeganistão, Paquistão e sul da Rússia. O objetivo foi simular a expansão da geração e os fluxos de transmissão transfronteiriços sob diferentes cenários hidrológicos, econômicos e de política energética.

A base de dados de geração inclui mais de 300 locais de energias renováveis, existentes e candidatos, abrangendo diferentes tecnologias e geografias. As estimativas de capacidade refletem a qualidade espacial dos recursos e restrições em nível de projeto, evitando suposições excessivamente otimistas de oferta.

As projeções de demanda incorporam variações sazonais e mudanças estruturais na economia, enquanto a modelagem da transmissão considera topologia da rede, limites de interconexão e cenários futuros de reforço da rede.

Os resultados apontam para uma transição clara: de um sistema ainda fortemente dependente de carvão e usinas a gás ineficientes para um sistema cada vez mais dominado por energias renováveis e unidades despacháveis mais eficientes.

Em particular, o Cazaquistão tende a se consolidar como exportador regional de energia eólica, apoiado por nova capacidade nuclear, enquanto Tajiquistão e Quirguistão aproveitarão seus ativos hidrelétricos para fornecer energia firme e limpa a sistemas vizinhos.

A análise também mostra que os limites atuais de interconexão são uma restrição importante. Atualizações na transmissão — especialmente corredores leste-oeste e conexões norte-sul com Paquistão e Afeganistão — são necessárias para permitir o balanceamento sazonal eficiente e os fluxos de exportação. A diversidade hidrológica só pode ser monetizada se houver infraestrutura física de intercâmbio.

Para representar uma expansão realista de cada país, os planos de expansão foram inicialmente modelados de forma independente, sem considerar importações. Somente depois foram simulados investimentos em transmissão para identificar os reforços ótimos. Isso garante que nenhum país expanda seu sistema dependendo excessivamente de seus vizinhos, mantendo as trocas como oportunidades econômicas.

As simulações finais combinaram todos os ativos em um sistema integrado, com despacho operacional completo, sequenciamento de investimentos e restrições de confiabilidade.

A modelagem utilizou a plataforma OPTGEN-SDDP da PSR, com granularidade horária, margens de reserva dinâmicas, restrições de estabilidade da rede e cenários probabilísticos de afluências hidrológicas e geração renovável.

Desafios Institucionais e Impacto Regional

Apesar de seu apelo técnico, tanto Rogun quanto Kambarata-1 enfrentam desafios políticos e de cooperação significativos. A governança da água na Ásia Central permanece altamente sensível, enraizada em décadas de tensões relacionadas ao uso de rios transfronteiriços.

O Uzbequistão, em particular, inicialmente se opôs à construção de Rogun, citando preocupações com impactos na irrigação a jusante. O avanço do projeto exigiu anos de diálogo regional e mediação internacional, com o Banco Mundial desempenhando papel fundamental na facilitação da coordenação em nível de bacia.

Hoje, os projetos são vistos não apenas como empreendimentos energéticos, mas também como instrumentos de estabilização regional. Além da geração de eletricidade, contribuem para o reequilíbrio das relações água-energia nas bacias dos rios Amu Darya e Syr Darya.

O planejamento da operação hidrelétrica está sendo alinhado com liberações sazonais de água para a agricultura, especialmente durante os picos de verão — ajudando a reduzir atritos entre países a montante e a jusante.

Do ponto de vista da segurança energética, a nova capacidade hidrelétrica fornece geração limpa e firme que complementa a natureza intermitente da energia solar e eólica. Ela também ajuda a estabilizar a frequência do sistema e apoiar operações sincronizadas da rede entre países com margens de reserva limitadas.

Isso é particularmente relevante em Uzbequistão e Afeganistão, onde o rápido crescimento da demanda e fragilidades da rede limitam a flexibilidade do sistema.

Economicamente, o comércio regional de eletricidade viabilizado por esses projetos pode desbloquear bilhões de dólares em benefícios líquidos. Ao exportar excedentes hidrelétricos durante a estação úmida e importar energia durante períodos secos, os países podem otimizar trocas sazonais e reduzir a necessidade de geração térmica de respaldo.

Para Tajiquistão e Quirguistão, as receitas de exportação são essenciais para cobrir o serviço da dívida dos projetos. Para compradores como Paquistão e Afeganistão, as importações oferecem uma alternativa mais barata e limpa em comparação com geração térmica ineficiente ou investimentos adiados em nova capacidade.

As implicações geopolíticas também estão mudando. À medida que a infraestrutura regional se torna mais interdependente, os incentivos à cooperação aumentam. O comércio de eletricidade atua como um estabilizador, reduzindo fragmentações, criando dependências mútuas e diminuindo o risco de ações unilaterais sobre fluxos de água.

Nesse sentido, a interconexão energética torna-se não apenas um facilitador econômico, mas também uma ferramenta diplomática.

Considerações finais

A hidreletricidade na Ásia Central está passando de potencial estratégico para pilar operacional. Rogun e Kambarata-1 não são megaprojetos isolados, mas componentes de uma transformação sistêmica rumo à integração regional baseada em energias renováveis.

O sucesso desses projetos depende de mais do que obras civis ou condições de financiamento — exige modelagem robusta, governança transparente e plataformas confiáveis de coordenação regional.

Os frameworks de modelagem utilizados nesses projetos demonstram como a análise técnica pode apoiar decisões de alto impacto em ambientes politicamente complexos. Ao simular cenários de longo prazo com o OPTGEN-SDDP, considerando restrições realistas e dinâmicas intertemporais, os planejadores puderam testar caminhos de expansão e quantificar os trade-offs entre suprimento doméstico, exportações e confiabilidade do sistema.

À medida que as interconexões se expandem e os sistemas energéticos se tornam mais interdependentes, o valor do planejamento integrado cresce. A energia limpa, quando implementada com precisão e alinhamento transfronteiriço, torna-se mais do que uma solução climática — torna-se uma estratégia de desenvolvimento e um vetor de cooperação regional.

Esses dois projetos hidrelétricos sinalizam o início dessa transição.

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