Por mais de duas décadas, o PSR User Meeting tem servido como um fórum de intercâmbio técnico entre profissionais atuantes no planejamento energético, na operação de sistemas e no desenvolvimento de modelos analíticos. Com o tempo, no entanto, seu papel se tornou mais amplo do que o de um evento convencional de usuários. À medida que o setor se tornou mais complexo, o encontro passou a ser cada vez mais um espaço onde métodos, ferramentas e desafios reais de planejamento são examinados em conjunto — não como conversas separadas, mas como diferentes dimensões de uma mesma transformação.
Essa transformação avança rapidamente. Os sistemas de energia estão sendo remodelados pelos efeitos combinados da descarbonização, da eletrificação, da incerteza climática, das restrições de rede e das crescentes necessidades de flexibilidade. Ao mesmo tempo, o próprio ambiente analítico está mudando. Os avanços em poder computacional, pipelines de dados e inteligência artificial começam a influenciar não apenas a escala na qual os problemas podem ser abordados, mas também a forma como os estudos são formulados, os fluxos de trabalho são organizados e as decisões são apoiadas. Em paralelo, a rápida expansão dos data centers tornou-se, por si só, um fator relevante de demanda por energia elétrica e por infraestrutura, trazendo novas questões de planejamento à tona. Nesse contexto, as fronteiras entre metodologia, computação e estratégia setorial estão se tornando cada vez mais difusas.
A edição de 2025 do PSR User Meeting, realizada em Búzios, refletiu esse momento com particular clareza. Reunindo mais de 100 participantes de 19 países e 48 empresas, além de uma grande delegação técnica da PSR, o evento ofereceu um ambiente internacional para discussões sobre algumas das questões que hoje definem a fronteira da análise energética. Questões relacionadas à integração de renováveis, representação do clima, flexibilidade, expansão da transmissão, robustez metodológica e aplicação prática de modelos não foram tratadas como tópicos isolados, mas como partes de um esforço mais amplo para melhorar a forma como sistemas complexos são representados e como as decisões de planejamento são tomadas sob incerteza. O valor do encontro residiu precisamente nessa combinação: profundidade metodológica, intercâmbio prático e interação direta entre usuários e desenvolvedores.
A próxima edição, a ser realizada em Foz do Iguaçu, Brasil, de 25 a 29 de maio de 2026, dará continuidade a essa trajetória. O cenário é particularmente apropriado. Além de sua relevância simbólica, Foz do Iguaçu situa a discussão próxima a uma das infraestruturas energéticas mais emblemáticas do mundo: Itaipu. A visita técnica planejada agrega uma dimensão concreta ao encontro, conectando as discussões analíticas com a escala, a engenharia e a realidade operacional de grandes sistemas de energia.
A edição de 2026 deverá abordar temas estratégicos como resiliência e flexibilidade em sistemas de energia, modelagem de mudanças climáticas e representação de incertezas, planejamento integrado de geração, transmissão e armazenamento, desenho de mercado e confiabilidade, métodos avançados de otimização, e a crescente necessidade de fluxos de trabalho analíticos escaláveis apoiados por computação de alto desempenho, automação e visualização avançada. Dentro desse panorama mais amplo, é natural que a inteligência artificial também faça parte da conversa — tanto como nova fonte de demanda por meio da expansão de data centers, quanto como uma capacidade emergente que pode redefinir a forma como os estudos são preparados, explorados e utilizados por profissionais e tomadores de decisão. Não como uma tendência isolada, mas como mais uma expressão da rapidez com que o contexto analítico e operacional do setor energético está evoluindo.
É isso que confere ao PSR User Meeting sua relevância contínua. O evento não é importante simplesmente por apresentar novas ferramentas ou desenvolvimentos recentes, mas porque cria um espaço em que as questões técnicas mais prementes podem ser discutidas antes de se tornarem prática consolidada. É um lugar para examinar o que deve ser representado com maior cuidado, o que agora pode ser resolvido de forma mais eficaz, quais novos trade-offs estão emergindo e como as abordagens analíticas devem se adaptar para permanecer úteis em um setor em transformação.A Special Issue deste novo Analytics Report é, portanto, um lugar natural para abrir essa discussão. Muitos dos temas explorados nas páginas seguintes — da representação de incertezas e valoração do armazenamento à flexibilidade de transmissão, escalabilidade computacional e inovação orientada pela pesquisa — estão intimamente conectados às mesmas questões que moldarão o próximo PSR User Meeting. Esperamos dar continuidade a esse intercâmbio em Foz do Iguaçu, na companhia daqueles que trabalham para avançar a análise energética na prática.